
terça-feira, 26 de setembro de 2017
O Primeiro Encontro

domingo, 12 de junho de 2016
Por que certos casais não assistem pornô juntos
Ela – Já começou, amor?
Ele – Já têm umas meia hora.
Ela - Desculpe, fui fazer a pipoca.
Ele - Pipoca?
Ela - Sim, não vamos ver filme?
Ele - Sim, mas é pornô.
Ela - E dai?
Ele - Dai que ninguém vê filme pornô comendo pipoca.
Ela - Você é muito certinho.
Ele - Não sou nada.
Ela - Bom... Aproveitei também pra lavar a louça do jantar que você deixou na pia
Ele - Eu ia lavar amanhã.
Ela - Sabe que não gosto de ver a pia com louça suja.
Ele - Tudo bem. Vamos ver o filme, que tá interessante.
Ela - Quem é o mocinho?
Ele - Que mocinho?
Ela - O mocinho... O cara bom do filme.
Ele - Nesse tipo de filme não tem mocinho ou vilão. Bom, depende do ponto de vista.
Ela - Como assim?
Ele - Têm uns atores que gostam de dar uns tapas, engasgar, essas coisas.
Ela - Credo! Maria da Penha neles.
Ele - É um filme, amor.
Ela - Mesmo assim. Eles instigam à violência doméstica mostrando essas coisas.
Ele - Nada a ver. Vamos ver o filme.
Ela - Já tô aqui há uns dez minutos e até agora ela só fez chupar o cara.
Ele - Esses filmes são assim.
Ela - Mas precisa demorar tanto tempo chupando?
Ele - Sei lá.
Ela - Como ela consegue por tudo isso na boca?
Ele - Nem é tão grande assim. E você também consegue.
Ela - Consigo, mas o teu não é tudo isso ai. Isso é aí é uma monstruosidade de enorme.
Ele - ...
Ela - Que foi?
Ele - Nada não.
Ela - Ela se levantou, acho que vai começar a ação.
Ele - Sim!
Ela - Como é o nome dessa meia mesmo?
Ele - Meia-calça?
Ela - Acho que tem outro nome.
Ele - Não sei.
Ela - Pensei que soubesse.
Ele - Nem tinha reparado que ela estava usando isso.
Ela - Tá olhando o que então?
Ele - Tudo, menos as roupas.
Ela - Oooowwwnn, que francesinha sensacional.
Ele - Não é assim que chama.
Ela - Como não?
Ele - É espanhola.
Ela - Tá doido? É francesinha.
Ele - Espanhola.
Ela - Quer saber de unha mais do que eu?
Ele - Unha?!
Ela - Sim, unha.
Ele - Ah, sim.
Ela - É francesinha ou não é?
Ele - Sim, é... Olha só onde ela conseguiu colocar a perna!
Ela - Ela é um pouco flexível.
Ele - Um pouco?
Ela - Sim, um pouco.
Ele - Achei bastante.
Ela - Grandes coisa.
Ele - Você não consegue por a perna nem metade de onde ela colocou.
Ela - E dai?
Ele - Bora ver o filme.
Ela - Ela geme muito.
Ele - Geme.
Ela - Isso não é normal.
Ele - Aí ela está atuando, mas há mulheres que são assim.
Ela - Como você sabe disso, Graucilando?
Ele - Sei o que?
Ela - Que têm mulheres que gemem muito.
Ele - Só sei.
Ela - Fala logo.
Ele - Há, meus amigos me contam suas aventuras.
Ela - Amigos é? Aventuras é?
Ele - Olha, nunca fizemos essa posição.
Ela - E dai?
Ele - Quer fazer?
Ela - Faz com essas pequenas que gemem muito.
Ele - Não tem ninguém, amor.
Ela - O que ela vai fazer com esse cabo de vassou... JESUS!
Ele - Até eu fiquei besta com essa.
Ela - O que essa mulher tem entre as pernas? Um buraco negro?
Ele - Ela é fogosa.
Ela - Graucilando?!
Ele - Oi.
Ela - O que é isso crescendo na sua calça?
Ele - Tanto tempo que tu não usa que já esqueceu?
Ela - Nem vem com tuas graças. Tá excitado com essa putinha ai?
Ele - Não amor. É que tô imaginando nós dois fazendo isso.
Ela - Com o cabo de vassoura?! Tá louco?!
Ele - Não, amor. Tudo, menos essa parte.
Ela - Por quê? Acha que não dou conta?
Ele - Não, amor. Não é isso.
Ela - PEGA A VASSOURA, AGORA!
Ele - Deixa disso, coração.
Ela - Deixa que eu mesmo pego.
Ele - ...
Ela - Olhe bem, Graucilando.
Ele - Esquece isso, Mauriciscleide. Vamos voltar a ver o filme.
Ela - Nada disso. Olha só... Tá vendo?... Huuumm... Viu como ela não é nada demais... Qualquer uma consegue... Vou girar pra tu ver... Esse sangramento é normal?... Graucilando, tô tonta.
Ele - Meu Deus do céu, Mauriciscleide!
Ela -...
***
Ele - Amor?
Ela - Onde estou?
Ele - No hospital. Você perdeu muito sangue e desmaiou.
Ela - Meu Deus!
Ele - Mas não se preocupe, você está bem. De manhã, dependendo dos exames, poderemos voltar pra casa.
Ela - Nunca mais pego num cabo de vassoura.
Ele - Isso é pra tu aprender.
Ela - Graucilando?
Ele - Oi?
Ela - Posso te fazer uma pergunta?
Ele - Claro?
Ela - Como acabou o filme? O mocinho venceu?
Ele - ...
FIM
Renan Medeiros
Breves, 12 de junho de 2016
FELIZ DIA DOS NAMORADOS
Por que certos casais não assistem pornô juntos
Ela – Já começou, amor?
Ele – Já têm umas meia hora.
Ela - Desculpe, fui fazer a pipoca.
Ele - Pipoca?
Ela - Sim, não vamos ver filme?
Ele - Sim, mas é pornô.
Ela - E dai?
Ele - Dai que ninguém vê filme pornô comendo pipoca.
Ela - Você é muito certinho.
Ele - Não sou nada.
Ela - Bom... Aproveitei também pra lavar a louça do jantar que você deixou na pia
Ele - Eu ia lavar amanhã.
Ela - Sabe que não gosto de ver a pia com louça suja.
Ele - Tudo bem. Vamos ver o filme, que tá interessante.
Ela - Quem é o mocinho?
Ele - Que mocinho?
Ela - O mocinho... O cara bom do filme.
Ele - Nesse tipo de filme não tem mocinho ou vilão. Bom, depende do ponto de vista.
Ela - Como assim?
Ele - Têm uns atores que gostam de dar uns tapas, engasgar, essas coisas.
Ela - Credo! Maria da Penha neles.
Ele - É um filme, amor.
Ela - Mesmo assim. Eles instigam à violência doméstica mostrando essas coisas.
Ele - Nada a ver. Vamos ver o filme.
Ela - Já tô aqui há uns dez minutos e até agora ela só fez chupar o cara.
Ele - Esses filmes são assim.
Ela - Mas precisa demorar tanto tempo chupando?
Ele - Sei lá.
Ela - Como ela consegue por tudo isso na boca?
Ele - Nem é tão grande assim. E você também consegue.
Ela - Consigo, mas o teu não é tudo isso ai. Isso é aí é uma monstruosidade de enorme.
Ele - ...
Ela - Que foi?
Ele - Nada não.
Ela - Ela se levantou, acho que vai começar a ação.
Ele - Sim!
Ela - Como é o nome dessa meia mesmo?
Ele - Meia-calça?
Ela - Acho que tem outro nome.
Ele - Não sei.
Ela - Pensei que soubesse.
Ele - Nem tinha reparado que ela estava usando isso.
Ela - Tá olhando o que então?
Ele - Tudo, menos as roupas.
Ela - Oooowwwnn, que francesinha sensacional.
Ele - Não é assim que chama.
Ela - Como não?
Ele - É espanhola.
Ela - Tá doido? É francesinha.
Ele - Espanhola.
Ela - Quer saber de unha mais do que eu?
Ele - Unha?!
Ela - Sim, unha.
Ele - Ah, sim.
Ela - É francesinha ou não é?
Ele - Sim, é... Olha só onde ela conseguiu colocar a perna!
Ela - Ela é um pouco flexível.
Ele - Um pouco?
Ela - Sim, um pouco.
Ele - Achei bastante.
Ela - Grandes coisa.
Ele - Você não consegue por a perna nem metade de onde ela colocou.
Ela - E dai?
Ele - Bora ver o filme.
Ela - Ela geme muito.
Ele - Geme.
Ela - Isso não é normal.
Ele - Aí ela está atuando, mas há mulheres que são assim.
Ela - Como você sabe disso, Graucilando?
Ele - Sei o que?
Ela - Que têm mulheres que gemem muito.
Ele - Só sei.
Ela - Fala logo.
Ele - Há, meus amigos me contam suas aventuras.
Ela - Amigos é? Aventuras é?
Ele - Olha, nunca fizemos essa posição.
Ela - E dai?
Ele - Quer fazer?
Ela - Faz com essas pequenas que gemem muito.
Ele - Não tem ninguém, amor.
Ela - O que ela vai fazer com esse cabo de vassou... JESUS!
Ele - Até eu fiquei besta com essa.
Ela - O que essa mulher tem entre as pernas? Um buraco negro?
Ele - Ela é fogosa.
Ela - Graucilando?!
Ele - Oi.
Ela - O que é isso crescendo na sua calça?
Ele - Tanto tempo que tu não usa que já esqueceu?
Ela - Nem vem com tuas graças. Tá excitado com essa putinha ai?
Ele - Não amor. É que tô imaginando nós dois fazendo isso.
Ela - Com o cabo de vassoura?! Tá louco?!
Ele - Não, amor. Tudo, menos essa parte.
Ela - Por quê? Acha que não dou conta?
Ele - Não, amor. Não é isso.
Ela - PEGA A VASSOURA, AGORA!
Ele - Deixa disso, coração.
Ela - Deixa que eu mesmo pego.
Ele - ...
Ela - Olhe bem, Graucilando.
Ele - Esquece isso, Mauriciscleide. Vamos voltar a ver o filme.
Ela - Nada disso. Olha só... Tá vendo?... Huuumm... Viu como ela não é nada demais... Qualquer uma consegue... Vou girar pra tu ver... Esse sangramento é normal?... Graucilando, tô tonta.
Ele - Meu Deus do céu, Mauriciscleide!
Ela -...
***
Ele - Amor?
Ela - Onde estou?
Ele - No hospital. Você perdeu muito sangue e desmaiou.
Ela - Meu Deus!
Ele - Mas não se preocupe, você está bem. De manhã, dependendo dos exames, poderemos voltar pra casa.
Ela - Nunca mais pego num cabo de vassoura.
Ele - Isso é pra tu aprender.
Ela - Graucilando?
Ele - Oi?
Ela - Posso te fazer uma pergunta?
Ele - Claro?
Ela - Como acabou o filme? O mocinho venceu?
Ele - ...
FIM
Renan Medeiros
Breves, 12 de junho de 2016
FELIZ DIA DOS NAMORADOS
sexta-feira, 15 de janeiro de 2016
Na delegacia...
- Bom dia, seu guarda.
- Bom dia, cidadão.
- Gostaria de saber do meu caso. Se já tem alguma noticia?
- Desculpe, senhor. Há muitos casos que estamos investigando. Poderia ser mais especifico?
- Meu nome é Renan Medeiros, tive meu notebook roubado semana passada.
- Ah sim. Fale com o Rogerio. Ele está naquela mesa lá, oh. Aquele de bigode.
***
- Você é o Rogerio.
- Sim.
- Meu nome é Renan. Gostaria de saber se têm notícias do meu notebook que foi roubado semana passada.
- Ah, sim. Temos notícias sim.
- Que maravilha!
- Primeiramente, ele não foi roubado.
- Pera. Como assim?
- Ele se mudou pra São Paulo.
- Estou falando de um notebook, senhor.
- Sim, eu sei.
- Tá me dizendo que ele se MUDOU pra São Paulo?
- Exatamente. Nossas investigações mostraram que a bateria dele se viciou, acabou se enrolando com traficantes da CELPA e fugiu pra São Paulo. Você pode encontrar ele na Crakolância. Mas ele está irreconhecivel. Ele fez umas tatuagens em sua carcaça, vendu algumas peças de si e tá usando energia de gato em plena luz do dia.
- Jesus!
- Notificamos uma ong de técnicos que reabilita esses viciados. Mas parece que seu notebook é mais problemático do que pensávamos. Sabe como é... quando um Sony Vaio dá pau, é foda.
- Obrigado.
- Qualquer coisa te avisamos.
- Até mais.
- Até.
terça-feira, 29 de dezembro de 2015
Charonildo
Era mais um dia comum, na verdade, era mais uma noite comum. Não, espera, minto. Não era uma noite tão comum assim, afinal, não são todos os dias (ou seria noites?) que Charonildo se reunia, em confraternização, com os seus amigos.
Charonildo não queria muito estar ali, mas não tinha nada melhor pra fazer. Então, resolveu deixar seu pijama de lado, as barras de chocolate, o balde de pipoca, os restos da pizza da noite anterior e o “super mega hiper” jogo do ano (no vídeo game já meio gasto), e foi encarar essa socialização auto imposta.
Tantos conhecidos, um bocado de desconhecidos. Seria só mais uma confraternização, como qualquer outra, onde homens e mulheres conversavam sobre assuntos diversos, jogando restos de comida pelo ar com a boca, e gastando refrigerante (ou cerveja, ou vinho) pelo nariz, depois de ouvir aquela “super sensacional nova piada” de um cara que quer ser o mais humorado da mesa. Tudo isso, enquanto o garçom se descabela tentando atender aos caprichos individuais de cada um.
Rostos alegres, pensativos, observadores. Cada um vivendo aquele momento único, que provavelmente se repetiria na singularidade algumas vezes durante o ano seguinte. Ora ou outra Charonildo se perguntava se já não era hora de ir embora. Aquela fase “super difícil” do game o aguardava. Mas algo ainda o mantinha ali, ouvindo aquelas pessoas e comendo aquela comida (preferia o da mãe dele).
Foi quando ela surgiu, dentre tantos estranhos, tantos risos e sorrisos, o dela se diferenciou. Foi como se toda aquela gente, aquele burburinho de vozes querendo atenção, e aquela musica ruim, desaparecesse em um limbo desconhecido. Charonildo só a via, só a ouvia. Mais nada, mais ninguém, somente aquele acelerar do coração e aquela visão deslumbrante de uma ninfa urbana.
Esqueceu-se de toda aquela “gordice” que o esperava, e aquele jogo não tão bom assim. Pelo visto a noite seria mais longa do que planejará. Que maravilha! O destino apronta tantas, mas, de vez em quando, ela sorri. E são nessas horas que a resposta do “por que estou aqui?” vem à tona, balançando o coração.
Vamos deixar o Charonildo em paz, conquistando a sua amada. Quem sabe o resultado não venha a ser outra historia, que contarei com prazer.
quarta-feira, 12 de agosto de 2015
Na Caçada com Papai
Os ventos do sudeste chegavam timidamente até as copas das árvores, balançando seus galhos, fazendo as folhas amarelas caírem bailando no ar até repousar no chão da mata. Roney sempre desejou sair com seu pai para caçar, e finalmente este dia havia chegado.
- Agora que têm oito anos, já está na hora de aprender as artes da caça. – disse o velho homem ao seu filho, enquanto vasculhava o chão. – Caçar é uma tradição da família Guilhardy, ensinada de pai pra filho. De geração pra geração. – tirou umas folhas do chão e chamou Roney para mais perto. – Veja, essa é a pegada do animal que estamos procurando. Ele está indo para o norte. Venha!
Saíram correndo mata adentro. Roney quase não conseguiu acompanhar os passos do pai. Estava com um rifle modificado, para que ele pudesse usar. Um rifle comum teria uma potencia muito forte e ele não aguentaria.
Após alguns minutos, encontraram a caça descansando da fuga e tentando se localizar. Esconderam-se atrás de uma moita e observaram melhor os movimentos do animal.
- Agora é a sua chance filho. Mostre que seu treinamento valeu a pena. – disse o pai ao filho, vendo-o preparar o rifle. – Tente acertar na cabeça.
O garoto apoiou o pequeno rifle no ombro e mirou. A felicidade estava estampada no rosto do menino. Finalmente abateria o seu primeiro animal e veria o seu pai orgulhoso. Apertou o gatilho. A bala atravessou invisível pela floresta, atingindo folhas e galhos, e acertou em cheio o seu alvo.
A cabeça da caça foi perfurada, e o projétil atravessou-lhe. O sangue se espalhou, pintando de forma macabra a árvore atrás. O corpo da criatura caiu instantaneamente no chão, tendo espasmos.
Foram andando calmamente até o corpo falecido do animal. O silencio da floresta só era quebrado pelos risos daquela dupla.
- Que lindo trabalho, meu filho. Acertou de primeira. Estou orgulhoso. Tome. – entregou-lhe um facão – Sabe o que deve ser feito.
O garoto pegou o facão da mão de seu pai, e cortou a cabeça do animal. Este era o prêmio que os caçadores da família Guilhardy conquistavam a cada caça que abatiam. Empalhavam e penduravam em uma sala.
- Semana que vem sairemos para caçar de novo. E deixarei você escolher que animal irá abater.
Quando chegaram à fazenda, o pai do garoto pediu para ele deixar a cabeça no curral das caças, para que ele fosse mais tarde empalha-la. O garotinho entrou no grande curral. Várias vozes gritavam de dor e desespero. Pediam comida, água, liberdade, piedade.
Roney jogou a cabeça em cima de uma mesa, e voltou sorridente, olhando para os homens e mulheres presos em celas, acorrentados. Parou em frente a uma cela onde estava uma mulher grávida.
- Papai disse que semana que vêm poderei escolher a caça que eu quiser. E adivinha quem vai ser? – apontou para a mulher. – Você.
E saiu rindo, indo em direção ao almoço em comemoração ao dia dos pais.
FIM
quinta-feira, 25 de junho de 2015
A Foice do Anjo da Morte
Eles preferem que eu não saia. Não devo conhecer ninguém, nem ter notícias do mundo lá fora. Não posso saber o nome das pessoas que servem minhas refeições, nem ouvir a voz deles. Ninguém, absolutamente ninguém, deve ser relacionar comigo. Qualquer dialogo que possam dirigir a mim seria punido com a morte
Ah, a morte! Como a conheço tão bem. Somos tão íntimos que não existe uma gota de receio quando está surge em minha frente. Ela é tão real como as correntes que me prendem. Já ouvi, nos momentos em que saio para trabalhar, alguém na multidão dizer entre sussurros que sou a própria personificação do anjo da morte.
Não acredito nesta podre crença. Sou só mais uma ferramenta desta natureza tão temida e desconhecida por nós, humanos. Sou a foice do Anjo da Morte. A morte é tão natural, mas, ao estarem prestes a morrer, os olhos daqueles que não conheço se enchem de pavor. Todos sabem que a morte é inevitável, e muitas vezes é a solução para os sofrimentos desta vida terrível neste mundo caótico. Mas, mesmo assim, não entendo o desejo de permanecer vivo que os humanos tanto têm.
Eles se seguram na falsa crença da imortalidade, como uma criança agarra a perna da mãe ao estar com medo. Ao se depararem com a morte, suas crenças vão abaixo, levando seus planos e desejos, e percebem o quanto são frágeis e mortais. Imploram pela vida, por misericórdia, por algo que chamam de ‘deus’. Mas até hoje nunca vi alguém escapar da morte com essas palavras vazias. Quando o rei decide penalizar alguém com a morte, não existe ninguém que o faça desistir.
Seu eu pudesse, morreria.
Lembro-me como o rei me encontrou. Estava com a minha família, vivendo miseravelmente na Vila dos Corvos. O rei chegou, com sua comitiva , e me viu colhendo os mirrados milhos de nossa plantação. “Nunca vi alguém tão forte” disse, fazendo seu cavalo relinchar. “Há boatos de que ele é um bastardo de um gigante da montanha”, comentou um dos homens.
Meu pai e minha mãe chegaram, não me lembro ao certo o que conversaram. Só o sangue me vem a memoria. A cabeça do meu pai, sem corpo, estirado no chão, é a lembrança mais viva que tenho. E os gritos de minha mãe, com duas lanças cravadas em seu peito, ainda ecoam em meus ouvidos.
Eles me acorrentaram, disseram-me que eu serviria ao rei. Cresci matando. “A morte foi destinada a você”, me disse meu antecessor. “Nunca haverá um igual a você em todos os reinos que existem e existirão”.
Noite passada foi mais um dia de serviço ao rei. Desci as grandes escadas de minha torre, andei pelos corredores e salões, acompanhado dos guardas, até chegar no grande salão do rei. Não mais se penaliza os homens nas praças públicas, o rei prefere o conforto de seu trono. Os súditos que venham até ele ver o espetáculo.
Meu antecessor usava uma foice, era uma morte rápida e limpa. Mas meu tamanho e força animou o rei para melhorar as penas de morte. Me deram um grande martelo de guerra, com espinhos grossos em suas pontas. “Com a sua força será uma morte rápida, mas não garanto limpeza.” Me falaram. E foi assim desde então.
Um homem ajoelhado, acorrentado e curvado para frente, com a sua cabeça repousada em uma estaca grossa de madeira. Olhei para os seus olhos, como sempre cheios de pavor. Qual o seu nome? Não sei. Não me importava. Saber o nome dele, conhecer a vida dele poderia me fazer criar algum vinculo e, quem sabe, ceder na hora de puni-lo. Por isso me proíbem de sair, de conhecer as pessoas, de conhecer o mundo.
Sua dor não é nada pra mim. Suas lagrimas me irritavam. Depois de perder meus pais, a morte de ninguém é importante. Alias, somente uma morte é importante para mim, e não sei se um dia terei chance de puni-lo como se deve.
Olhei ao redor e vi os rostos que me olhavam temerosos, ansiando pela morte daquele desconhecido. Eu era o dobro do tamanho da maioria. Em seu trono o rei, o maldito rei, sentado confortavelmente, acariciando o seu urso gigante, deitado ao seu lado. Maldito! Nunca esqueci seus risos ao ver minha mãe agonizando. Esse martelo deveria ser destinado àquela cabeça. Minha raiva invadiu-me, queria mata-lo, mas seria morto antes que conseguisse.
Desci o martelo na cabeça daquele homem, com toda a mina fúria. Em segundos o que era uma cabeça virou uma pasta. Restos de cérebro voaram no meio da multidão. Pedaços de seu crânio grudaram no martelo. Mais um homem morto por mim.
Mais um dia me vingarei, e transformarei esse rei em pedaços e darei para o seu urso comer. Porque sou o carrasco do reino. O mais poderoso carrasco já visto neste mundo. E meu papel é punir os criminosos com a morte. E não existem maiores criminosos do que aqueles que detém poder deste mundo.
FIM
domingo, 10 de maio de 2015
Mãe, com M de Morte
A cidade dormia naquela madrugada se preparando para as homenagens, que começariam logo ao amanhecer, à todas as mães. Mas nem todos estavam repousando em seus travesseiros, tranquilos, com os presentes escondidos que dariam ao acordar.
Ninguém desconfiava do que estava acontecendo dentro dos muros do cemitério velho. As neblinas densas se espalhavam até perder de vista entre as catacumbas e túmulos. O vento uivava e chacoalhava as poucas árvores do local.
Entre os mortos que repousavam, um vivo trabalhava. Um homem, agasalhado por um grosso casaco, cavava sem descanso um dos túmulos que se escondia no ventre daquela terra. Sua pá, a cada enfiada naquela terra molhada, desnudava cada vez mais aquele leito eterno.
Horas se passaram debaixo do céu nublado até que aquele homem desconhecido, enfim, achou o que procurava. O caixão parecia ainda intacto, mesmo com os anos que se seguiram após ser enterrado. Seus olhos passearam por aquela madeira, seu cérebro lhe trouxe a imagem do que havia ali e seu estomago ameaçou agir caso ele abrisse aquilo.
Mas ele deveria abrir.
Subiu no buraco que havia cravado na terra, e voltou com uma grande bolsa. Seu rosto pingava o suor do cansaço físico. Tragou uma grande quantidade de oxigênio e resolveu tirar a tampa.
O cheiro da podridão infestou o local. Ele quase vomitou naquele corpo decomposto. Abriu a bolsa e tirou de lá um pequeno pacotinho, se agachou e colocou, com dificuldades, dentro da boca daquele corpo. Depois pegou um pedaço de madeira de limoeiro e cravou no peito e, por fim, regou-a com sangue de gato preto.
Disse algumas palavras em voz baixa e saiu de lá. Sentou em uma lapide e lá ficou, aguardando o resultado de sua invocação, até adormecer.
Ele não soube dizer quanto tempo passou até que um barulho o acordou. Ao abrir os olhos viu dois braços agarrando a terra. Uma pessoa estava tentando sair daquele buraco que ele havia feito. Seu coração pulou de medo, depois de alegria.
Correu até lá e ajudou a pessoa a sair. Afastou-se e ficou olhando. A pessoa abriu os olhos e olhou em volta, atordoada, sem saber o que estava acontecendo. Seu corpo, que outrora estava quase todo consumido pelas larvas, havia voltado a ficar como antes de sua morte.
- Mamãe? É você? – disse o homem chorando.
Ela olhou para ele, seguindo o som de sua voz, mas não expressou felicidade ou tristeza. O homem correu até a direção dela, abraçando-a e dizendo o quanto a amava e sentia saudades. Sua alegria por ter conseguido ter sua mãe de volta, mesmo por ser através de magia negra, era imensa.
Uma alegria que não durou muito tempo, pois logo sua mãe lhe arrancou metade do pescoço com a boca e usou o resto da noite para consumir a carne daquele que um dia foi o seu filho.
Àquele homem não sabia que os espíritos não retornam, e que seus corpos reanimados são usados pelo inferno.
Feliz dia das Mães.
Renan Medeiros
quinta-feira, 7 de maio de 2015
A Dançarina Sem Nome
Sua curva era um perigoso labirinto de desejo. Muitos queriam adentrar aquele caminho hipnótico, mas se contentavam em simplesmente lhe olhar, jogando algumas notas generosas de reais para que seu rebolado fosse mais sensual.
Ela já não enxergava mais aqueles olhos sedentos por sexo que lhe rodeavam. Seus pensamentos estavam navegando em uma historia inexistente, carregada de amor e paixão. Aquela vida já não lhe dava mais o prazer que a fez viver aquilo até hoje. O dinheiro era generoso, mas lhe custava caro. Ela queria encontrar um amor, alguém que lhe tirasse dali e desse a família que estava sonhando. Mas a sua vida não lhe dava esse prazer.
Sua fama correu longe, e isso fez os homens não a quererem para amar. Em seus pensamentos, ela só era um pedaço de carne que desejava mais um pedaço de carne entre suas pernas. No pensamento dela, aqueles homens eram pobres cuzões que só servia para lhe dar dinheiro em troca de um rebolado.
Cada um dava o que o outro queria, mas não dava o que realmente precisavam.
Naquela noite a casa estava cheia. Ela e as outras meninas adentraram a madrugada, até quase amanhecer. Faturaram alto e isso lhe animou um pouco. Arrumou-se como de costume e saiu a pé para a sua casa.
Em uma curva, quase chegando ao seu quarteirão, um homem apareceu, não falou nada, simplesmente lhe deu um tiro na cabeça e foi andando tão tranquilamente como quando surgiu da escuridão.
Seu corpo, minutos antes sendo desejado por tantos homens, agora estava atirado no chão, sem vida, banhando a calçada com o sangue do que havia sobrado de seu crânio.
A manchete dos jornais daquele dia dizia que uma prostituta havia sido morta. Seu nome continuou famoso e deturbado, mas sua alma havia encontrado a paz.
FIM
quarta-feira, 6 de maio de 2015
Contos No Sense
Cabalo nasceu, cresceu e morreu. Longe de casa a bicicleta voou dentro da água petrificada. O pato bicou a roupa do rei de Bartolomeu. Mas a vida foi-se na gosma de andaime. Porque o justo, na injustiça, sabe que o certo é o contrário daquilo que se pensou na historia que foi contada ao contrário. Mas, pensando assim, sim sei. Na vida, morre-se como se estivesse vivo. Em um dia inteiro, a metade é o dobro do triplo de cinquenta, dividido por cinco, mais o dobro daquilo que se pensou na instituição hortaliça. Por que tu é a segunda pessoa do singular e eu sou singularíssimo, então eu sou tu e tu é eu.
Carlinhos estava andando na livraria quando um peixe caiu em seu pé. Mas ele não ligou, porque sua camisa era vermelha. O dono disse que a vida é passageira, assim como o peixe que saiu nadando na calçada. Longe dali, Junior calçou a vírgula e alimentou-se de dois pontos. Por que um só ponto não ia encher a sua consciência.
E assim fora felizes para a ponte da cachaça.
Fim
Contratos quebrados.
Absorto, ele fixava sua visão no teto enquanto sentia os delicados dedos dela tateando seu tórax, deleitando-se com os resquícios de prazer ...
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Absorto, ele fixava sua visão no teto enquanto sentia os delicados dedos dela tateando seu tórax, deleitando-se com os resquícios de prazer ...